Canhão Submarino da Nazaré – O abismo (Des)Conhecido

Santos, C.; Bértolo, A; André, J; Anastácio, J; Horta, L; Sousa, L.,

Palavras-chave: Canhão submarino; Sedimentos; Acidente geomorfológico; Falha; Biodiversidade; Ecossistemas

O Canhão ou Cana da Nazaré é conhecido como o maior da Europa e um dos maiores do Mundo (com a cabeceira situada a curta distância da linha de costa, o Canhão da Nazaré estende-se ao longo de mais de 200 km na direcção do oceano profundo) e só recentemente começou a ser estudado de forma multidisciplinar, pelo projecto Hermes (programa que reúne equipas de diversos organismos de investigação cientifica de toda a Europa), financiado pela União Europeia. O projecto prevê o levantamento minucioso do fundo do mar, com identificação de correntes, sedimentos e biodiversidade para tentar ajudar a perceber um dos mistérios do mar português.

O vale submarino começa a definir-se a cerca de 500 metros da costa, ao largo da Praia da Nazaré, próximo do promontório do Sítio, recortando a plataforma continental com uma direcção de EW. Prolonga-se por mais de 170km de comprimento e atinge uma profundidade superior a 5000 metros na planície abissal onde desemboca. Mas a sua origem é uma incógnita, porque, normalmente, estas estruturas estão associadas a grandes rios, servindo de vazadouros dos seus sedimentos, o que não acontece, de forma imediata e aparente, no caso da Nazaré. Há estudos que indicam a existência, noutras eras geológicas, de um rio aqui, possivelmente o Mondego que, por movimentos tectónicos, poderá ter sido desviado para norte.

Este autêntico «desfiladeiro» submarino influencia, de uma forma significativa, a plataforma continental e a região costeira, bem como, as espécies e os ecossistemas específicos do próprio canhão e o transporte de sedimentos das zonas costeiras para o largo. O canhão funciona como um gigantesco aspirador de areia, que engole o areal da costa portuguesa, principalmente os sedimentos provenientes da costa a norte da Nazaré. Tal facto explica o défice de sedimentos a sul do canhão e o elevado areal das praias a norte deste fenómeno geológico.

O Canhão da Nazaré é palco de processos dinâmicos e sedimentares extremamente energéticos e ainda pouco conhecidos, e pode constituir um local de refúgio que potencie o estabelecimento de ecossistemas marinhos profundos específicos, que importa conhecer.

O estudo do Canhão da Nazaré ajudou-nos a perceber, por exemplo, qual a sua influência sobre a abundância de peixe de águas profundas na região entre a Nazaré e Peniche; e analisar até que ponto os ecossistemas marinhos profundos são afectados pelos métodos de pesca intensiva. O levantamento biológico da flora e fauna do mar da Nazaré da área de influência do vale já trouxe à luz do conhecimento novas espécies, como os protozoários (Xenophyophore sp.) organismos unicelulares, envolto numa concha protectora achatada que podem atingir os 2,5 cm de largura por 6 cm de altura e é composta por finas partículas minerais, que vivem na superfície dos sedimentos e os crustáceos organismos com alguns milímetros de comprimento, brancos e com a particularidade de se enrolarem como um bicho-de-conta, vivem em grande profundidade, ente os 3000 e os 4000 metros.

Pressupõe-se que no subsolo da zona envolvente do canhão, deverá estar a maior reserva de hidrocarbonetos da Europa, devido à existência de uma grande bacia de sedimentos que poderá reter grandes quantidades de petróleo, embora os estudos já realizados não indiquem viabilidade de exploração.

Pelo trabalho elaborado, o nosso grupo considera o Canhão da Nazaré como um património BioGeológico de Portugal, devido a ser um dos maiores canhões do mundo e reunir condições físicas, químicas, biológicas e geológicas muito particulares.

Uma vez que a génese e a dinâmica do Canhão permanecem ainda como um mistério para os investigadores, achamos importante que a investigação multidisciplinar continue a ser realizada e apoiada por entidades competentes. E, acima de tudo, que o conhecimento permita preservar o mar português e as suas espécies.

Bibliografia:

http://www.nazare.oestedigital.pt/custompages/showpage.aspx?pageid=91ff1211-5d38-4b5f-810d-e95b4184ad41&m=b27 (disponível em 16 de Janeiro de 2008)
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1297315 (disponível em 16 de Janeiro de 2008)
http://www.freguesia-nazare.com/jf/index.php?Itemid=2&id=99&option=com_content&task=view (disponível em 16 de Janeiro de 2008)
http://www.cm-nazare.pt/download.aspx?x=2fd3187c-bd27-454b-beef-2c666217a3db (disponível em 16 de Janeiro de 2008)
http://websig.hidrografico.pt/www/content/documentacao/hidromar/2005/Hidromar90.pdf (disponível em 16 de Janeiro de 2008)

Comments
One Response to “Canhão Submarino da Nazaré – O abismo (Des)Conhecido”
  1. Sérgio Cardina diz:

    Achei interessante a descrição sobre tão importante legado da natureza nesta região. Seria importante tomar em conta as riquezas que daqui poderão vir, como: provávelmente combustiveis fósseis, tais como petróleo ou gás ainda por explorar devido à grande profundidade do leito do canhão existente. Não só isso como toda a biodiversidade que aqui existe são matéria a ter em conta para estudos científicos. Actualmente temos meios que nos podem dar resultados mais precisos sobre as riquezas existentes neste local e que devem ser tomados em conta para um conhecimento desta zona da nossa costa.

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