Questões ambientais de explorações calcárias – impacte vs. reutilização da Pedreira Vale da Cruz (Molianos, Alcobaça)

Jorge Miguel Guilherme, Pedro Francisco Santos; Rafael Carreira

A Pedreira Vale da Cruz explora calcários junto à aldeia de Molianos, na freguesia dos Prazeres, concelho de Alcobaça, distrito de Leiria. Esta pedreira encontra-se dentro dos limites do Parque Natural das Serra de Aires e Candeeiros (PNSAC) (Figura 2), constituído principalmente por rochas calcárias do Jurássico pertencentes ao Maciço Calcário Estremenho. Nos cerca de 900 km2 deste maciço abundam as pedreiras, muitas delas ativas dentro da área protegida do PNSAC, contribuindo para impactes ambientais negativos nas zonas envolventes. Alguns impactes ambientais negativos resultantes do abandono das explorações calcárias, devem-se a estas serem simplesmente deixadas às intempéries. Os principais destes impactes são: visual, queda de antigas escombreiras, formação de lagoas não controladas, instabilidade de antigas frentes de exploração (p.e. em declives verticais de até 20 metros de altura), a não cobertura com solos de modo a restaurar o ecossistema, abandono das instalações de logística da antiga pedreira, e ainda as perturbações remanescentes na fauna e na flora (p.e. por poeiras) e a poluição da água. A recuperação de antigas explorações minerais é um tema atual da sociedade e começa-se a conhecer diversos casos de sucesso através da comunicação social, como é o caso do reaproveitamento de antigas explorações para a construção do estádio do Sporting Clube de Braga, do Museu do Quartzo em Viseu e da nossa escola, o Instituto Educativo do Juncal, sendo a escola construída sobre uma base de uma antiga exploração de argila.

Impacte visual

O facto do solo ser escavado para a extração minéria causam uma degradação visual da paisagem e património cultural, apesar de isso poder ser passado por despercebido dependendo do tipo de paisagem e caso tenha existido uma sobrexploração da zona. Para este último facto, cabe aos exploradores de pedreiras de fazer o planeamento e a organização territorial dos locais explorados. Para este caso recomendamos a reflorestação do antigo espaço da pedreira com o objetivo de minimizar este impacte, assegurando a existência de uma paisagem equilibrada ou ainda a limpeza e do espaço, de modo a amenizar as “feias” paisagens deixadas pela exploração.

Processos e riscos geológicos

Estas concentrações de material estéril (Figura 4)previnem o crescimento de qualquer tipo de vegetação. Ainda a elevada precipitação pode causar o deslizamento de antigo material da pedreira com o risco de atingir alguém ou até populações a uma altitude mais baixa que a pedreira. Este material, ao deslizar, pode ainda entrar em contacto com linhas de água, o que por sua vez causará a sua poluição. De forma a minimizar o risco de derrocada deve-se vender o material abandonado pela antiga pedreira.

Impacte na água

Com a precipitação e caso o solo seja suficientemente impermeável existe uma potencial formação de lagoas em antigos locais de escavação (Figura 5). Essa água estando confinada a um pequeno espaço por longos períodos de tempos entrando em contacto com o calcário e alterando o seu pH. Com precipitação elevada a lagoa poderá transbordar para zonas circundantes, sendo então necessárias soluções para evitar a sua dispersão. Se a pedreira se situar a uma altitude considerável, como é o caso, a precipitação irá proporcionar condições para a dispersão de materiais nocivos para águas envolventes, podendo afetar populações circundantes caso a essa água seja utilizada para consumo. O deslizamento do material de escombreiras pode também causar a poluição da água. Neste caso a venda do material restante e limpeza da pedreira em questão é o caminho a seguir.

Impacte nos solos (Biodiversidade)

Este problema é um problema comum entre pedreiras inativas e ativas. No entanto uma pedreira inativa não traz qualquer tipo de utilidade sendo apenas “um fardo” para as entidades envolventes. Ao nível da ecologia os impactos causados serão em geral negativos no caso da flora e da flora com a destruição da maior parte do seu habitat na zona de exploração. Visto que o local não é mais um local de exploração deve ser reaproveitado o mais rápido possível. O solo ao ser escavado sempre numa certa zona, levou a criação de alguns declives perigosos (Figura 7), em que um reconhecimento do problema e sinalização é algo minimamente necessário, o que neste caso não se verificava. Ainda, ao entrar nas fraturas (como podem ser vistas na imagem), a água da chuva pode levar à quebra total e queda de material. Para a minimização deste impacte,a movimentação dos solos para recuperar a topografia do terreno em causa ou a reflorestação da zona afetada imediatamente a seguir ao fim da exploração é o caminho a seguir (Figura 6). Caso estas duas medidas não sejam aplicadas, a sinalização do espaço é minimamente obrigatória.

Impactes no património e infra-estruturas

No espaço de tempo em que a pedreira se encontra ativa, é necessária a criação de pelo menos um edifício de logística para funcionamento e organização de postos de trabalho da mesma (Figura 8). Após o abandono da pedreira, quaisquer desse edifícios construídos serão também abandonados, deixando-os sem qualquer utilidade, sendo indespensável a procura de novas aplicações para os edifícios, permitindo a economização de gastos em contruções que outrora seriam desnecessárias. Uma das das possíveis soluções, acima referenciadas por nos, é o aproveitamento da pedreira para residências. A forma como um local de extração é recuperado depende não só da sua localização, mas do orçamento necessário. Ora, se este custo de recuperação não for suportável, as pedreiras são muitas vezes abandonadas sem o mínimo de recuperação. Isto não pode ser no entanto, aceitável devido ao enorme impacte causado pelas pedreiras. Atualmente, com a abertura de uma pedreira, estabelece-se um contrato onde a empresa responsável é obrigada a assegurar a eliminação de factores de instabilidade de segurança (como os declives apresentados). Ainda, as empresas têm de preservar o património e assegurar a reintrodução do espaço no meio ambiente (por exemplo a reflorestação). Isto pode mostrar o interesse que as entidades (câmara municipal, etc) têm mostrado por este tema e ainda a realização do impacte das pedreiras inactivas.

Para o caso da pedreira Vale da Cruz propomos a sua reformulação para Ecoturismo, beneficiando da sua localização em termos de tranquilidade e paisagísticos (inclusive com vista para o mar), com a promoção de eco-eventos como passeios pedestres, geocaching, trekking, etc.. Pode ainda ser um polo de Educação Ambiental e Divulgação Científica. Tais actividades seriam associadas ao PNSAC, a escolas dos vários graus de ensino e a instituições de investigação.

Figura 1 - Extrato carta geológica número 26-b Alcobaça  - Escala 1:50 000

Figura 1 – Extrato carta geológica número 26-b Alcobaça – Escala 1:50 000

Figura 2 – Localização da Área em Estudo

Figura 2 – Localização da Área em Estudo

Figura 3 – Antiga Escombreira

Figura 3 – Antiga Escombreira

Figura 4 - Antiga escombreira

Figura 4 – Antiga escombreira

Figura 5 - Formação de uma lagoa

Figura 5 – Formação de uma lagoa

Figura 6 - Método recuperação solos - https://www.ccdrc.pt/

Figura 6 – Método recuperação solos – https://www.ccdrc.pt/

Figura 7 – Antiga frente de exploração

Figura 7 – Antiga frente de exploração

Figura 8 – Impacte visual da antiga pedreira

Figura 8 – Impacte visual da antiga pedreira

WEBGRAFIA

http://www.visaconsultores.com/pdf/VISA_com01.pdf http://www.lneg.pt/CienciaParaTodos http://www2.apambiente.pt/IPAMB_DPP/docs/RNT1269.pdf https://mesozoico.wordpress.com – Guilherme, J., Marques, F.; Cerejo, T. (2009) – Impacte ambiental das explorações de argilas no sinclinal alpedriz – porto carro (sector juncal – castanheira) https://mesozoico.wordpress.com – Guilherme, J., Marques, F.; Cerejo, T. – Estudo do impacte ambiental da exploração de pedreiras no parque natural das serras d’aire e candeeiros. http://sapinhogelasio.blogspot.pt/2011/11/carta-geologica-de-pataias-2.html

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Professor Doutor Jorge Dinis, Professor da FCT da Universidade de Coimbra pela ajuda e revisão deste trabalho.

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