A exploração de rochas para calçada portuguesa

Ana Sílvia Malhado; Carolina Ribeiro; Fábio Ribeiro; Rafael Pereira; Rui Parrilha

A realização deste trabalho teve como principal objetivo conhecer aspetos relacionados com a exploração de pedra para calçada portuguesa na freguesia de Alqueidão da Serra, pertencente ao concelho de Porto de Mós. Tendo em conta que a calçada faz parte da tradição e património português, há a salientar que em Portugal continental a maioria das rochas utilizadas para esse fim são provenientes de pequenas explorações a céu aberto, de reduzidas dimensões, e muito pouco mecanizadas, envolvendo poucos trabalhadores. Na zona em estudo existem actualmente cerca de 5 pedreiras que exploram o calcário preto e 16 o calcário cinzento-escuro.

Foi efetuada uma saída de campo para identificação de explorações de rocha para calçada portuguesa na localidade de Alqueidão da Serra (figura 1). Foram recolhidas amostras de rochas do Jurássico Superior com diferentes tonalidades e no laboratório foram feitos ensaios da reacção ao ácido, tendo resultado uma efervescência forte, a frio, ao ácido clorídrico (figura 2), concluindo-se que todas as rochas amostradas eram calcários.

Existem inúmeras variedades de calcário mas, em sentido lato, consideram-se todas as rochas com mais de 50% de CaCO3. A calcite tem uma densidade de 2,71 a 20º C. Os calcários, constituídos essencialmente por calcite, apresentam texturas bastante diversas, em função do tamanho e percentagem dos elementos carbonatados ou outros que os constituem. Os calcários usados para calçada são compactos e de dureza média e, em Portugal, ocorrem nas orlas mesocenozoicas. Os mais utilizados apresentam cor branca, no entanto, devido a outros constituintes, podem apresentar uma cor cinzenta, rosa ou negra. As diferentes cores dos calcários são função do ambiente aquando da sua génese ou da diagénese. As cores são tanto mais escuras quanto maior o teor de argilas, de óxidos, carbonoso ou de sulfuretos. O que despertou o interesse pelo tema foi o facto de existirem na zona as únicas pedreiras, a nível nacional, que extraem e produzem pedras de calçada de calcário negro, sendo um georrecurso menos comum, o que faz com que o seu valor comercial seja um pouco superior ao dos outros calcários. Estas pedreiras exploram calcários micríticos do Batoniano (Jurássico Médio) e do Oxfordiano-Kimeridgiano (Jurássico Superior), formados em ambiente de baixa energia de plataforma litoral, em que a cor negra resulta de significativo teor carbonoso e de pirite, associada a uma intrusão dolerítica (rocha ígnea básica) que acentuou a incarbonização.

De um modo geral, as explorações de pedra para calçada são explorações a céu aberto de pequenas dimensões e muito pouco mecanizadas, envolvendo poucos trabalhadores. Geralmente a exploração é iniciada quando se observa uma camada de boa qualidade e de preferência com um plano de falha que facilite a sua extração. Para obtenção de material pronto a comercializar, o trabalho de exploração envolve uma decapagem, desmonte, esquartejamento e acabamento (figura 4). O proprietário das pedreiras visitadas ofereceu um fóssil de gastrópode, que irá integrar o espólio paleontológico da escola (figura 3).

Conclusão
A calçada portuguesa é reconhecida e apreciada, nacional e internacionalmente, como parte integrante do nosso património e cultura. Diferentes tipos de litologia são extraídos em diversos pontos do país. O calcário é a rocha mais utilizada em calçada pela maior facilidade na fratura da rocha e no seu transporte/distribuição. As cores claras revelam ausência de quantidades significativas de outros componentes além da calcite, enquanto as cores escuras possuem elevadas percentagens de argilas, óxidos, sulfuretos ou materiais carbonosos. Para a realização do trabalho interessou particularmente a exploração de calcário da variedade negra, pouco frequente, e com a maior exploração nacional na freguesia de Alqueidão da Serra.

A exploração deste recurso mineral permitiu desenvolver as atividades socioeconómicas da povoação visitada. No entanto, através do contacto estabelecido com um dos proprietários das pedreiras, atualmente, tem-se assistido a um decréscimo na procura deste tipo de materiais.

O trabalho desenvolvido permitiu constatar que estas explorações, com um desenvolvimento tecnológico ainda muito manual, têm reduzido impacto e são de fácil recuperação após encerramento, pelo que poderão conciliar o desenvolvimento da região com a preservação dos recursos geoambientais.

Figura1 - Carta geológica de Portugal (folha 27-A – Vila Nova de Ourém -1/50 000) e respetiva legenda. Pedreiras localizadas na localidade de Alqueidão da Serra.

Figura1 – Carta geológica de Portugal (folha 27-A – Vila Nova de Ourém -1/50 000) e respetiva legenda. Pedreiras localizadas na localidade de Alqueidão da Serra.

Figura 2 – Reação ao  ácido clorídrico. Todas as amostras reagiram positivamente. Sequência de calcários amostrados de diferentes tonalidades formados no Jurássico.

Figura 2 – Reação ao ácido clorídrico. Todas as amostras reagiram positivamente. Sequência de calcários amostrados de diferentes tonalidades formados no Jurássico.

Figura 3 – Calcário negro com fóssil de gastrópode onde são visíveis pequenos cristais de calcite e pirite

Figura 3 – Calcário negro com fóssil de gastrópode onde são visíveis pequenos cristais de calcite e pirite

Figura 4 – Talhe da pedra. Os blocos fragmentados na fase de esquartejamento são cortados de forma a serem obtidos blocos comercializáveis, quer a nível das dimensões, quer a nível da forma que, geralmente, se pretende cúbica.

Figura 4 – Talhe da pedra. Os blocos fragmentados na fase de esquartejamento são cortados de forma a serem obtidos blocos comercializáveis, quer a nível das dimensões, quer a nível da forma que, geralmente, se pretende cúbica.

Bibliografia

Marta, P (2006) – Exploração de Calcários para Calçada Portuguesa – um Georrecurso Educativo para o Ensino Secundário.
Manual da Calçada Portuguesa: http://issuu.com/rochas.info/docs/manual_da_cal_ada_portuguesa (consultado em 9 de janeiro de 2012).
e-Geo – Sistema Nacional de Informação Geocientífica /LNEG – http://e-geo.ineti.pt/ (consultado em 9 de janeiro de 2012).

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Comments
One Response to “A exploração de rochas para calçada portuguesa”
  1. Laurindo Amorim diz:

    INFLUÊNCIA DO AMBIENTE NA A.M.L. (ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA) SOBRE A SELECÇÃO DA PEDRA CALCÁRIA DE LIOZ
    Descrição no livro:
    O presente estudo, resulta da adaptação de uma tese de mestrado, apresentada junto da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, no âmbito do Curso de Mestrado em Tecnologia da Arquitectura e Qualidade Ambiental, realizado entre 1993 a 1994. Visa essencialmente determinar os motivos históricos, compreendidos no período da alimentação da economia Portuguesa, pelo ouro derivado da colónia do Brasil, e viabilidade funcional no uso, que levaram à preferência na adopção da pedra calcária de lioz, para fazer face às características do ambiente na A.M.L. (Área Metropolitana de Lisboa), aponta similarmente precauções a ter na sua utilização e aplicação construtiva. Tendo como base a selecção de quatro localidades para amostras, expostas ao mar, interior urbano e rural, identificando as patologias e razões do seu desenvolvimento, fornecendo também indicações para as contrariar. Finalizando com o estabelecimento de um nível de ponderação de importância a dar, nas suas propriedades físicas e químicas, no sentido de proporcionar um método de selecção deste tipo de pedra, na substituição em edifícios existentes, tirando proveito desses parâmetros para servirem ao mesmo tempo, na selecção da pedra calcária de lioz, na construção de novos edifícios.

    Edifícios analisados: Palácio Ratton em Lisboa, Torreão Oriental da Praça do Comércio em Lisboa, Igreja de Nossa Senhora da Consolação em Arrentela e Igreja da Nossa Senhora do Monte Sião em Amora.

    Adquirir o livro nos websites:

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    http://www.amazon.de/Influ%C3%AAncia-ambiente-A-M-L-selec%C3%A7%C3%A3o-calc%C3%A1ria/dp/150037234X/ref=pd_rhf_se_p_img_1

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